Querido e gentil leitor rio-grandino, há algo mais preocupante do que uma cidade com problemas: uma cidade que deixou de se incomodar com eles.
Rio Grande parece ter chegado a esse estágio. Não é que o rio-grandino desconheça os problemas da cidade. Ele conhece todos. Sabe onde a rua alaga, qual ônibus nunca chega no horário, qual posto está sem remédio, qual prédio histórico ameaça desabar e qual promessa reaparece em toda eleição com uma placa nova e o mesmo resultado antigo.
O rio-grandino sabe de tudo. Apenas já não espera grande coisa.
Criamos uma espécie de mecanismo coletivo de defesa: transformamos o abandono em piada. A rua está esburacada? “É Rio Grande.” O ônibus atrasou? “Normal.” Faltou médico? “Sempre foi assim.” O centro está vazio, caro e deteriorado? “Não tem o que fazer.” A cidade perde oportunidades? “Aqui nada vai para a frente.”
Essa repetição não é apenas pessimismo. É o retrato de uma população que foi ensinada, ao longo dos anos, a diminuir suas expectativas. Para não se decepcionar novamente, o rio-grandino passou a esperar pouco. E quem espera pouco quase sempre recebe menos ainda.
Assim nasce a descrença.
Ela não aparece de uma hora para outra. Vai se formando devagar, como infiltração em prédio antigo. Primeiro surge uma pequena mancha. Depois vem o balde. Algum tempo mais tarde, ninguém sequer olha para o teto. A goteira passa a fazer parte da decoração.
Em Rio Grande, estamos nos acostumando com as goteiras — as reais e as políticas.
Estamos nos acostumando com a miséria moral da própria cidade. Não falo apenas de pobreza material. Falo de uma pobreza mais profunda: a incapacidade de se indignar, a aceitação do descaso, o silêncio conveniente e a transformação do interesse público em palco para vaidades particulares.
É a miséria de aceitar que o básico seja apresentado como favor. De agradecer pelo remédio que deveria estar disponível, pela rua que deveria ser transitável e pelo ônibus que deveria cumprir seu horário. Quando um direito finalmente é respeitado, aparece alguém para cortar uma faixa, gravar um vídeo e anunciar que realizou um feito histórico.
Daqui a pouco, trocar uma lâmpada exigirá cerimônia oficial, mestre de cerimônias e transmissão ao vivo.
Também nos acostumamos com uma política que prefere parecer a fazer. A cidade não precisa estar melhor; precisa apenas parecer melhor durante o tempo necessário para uma postagem. O problema continua, mas agora possui trilha sonora, legenda em letras grandes e um representante público apontando para ele com expressão de indignação cuidadosamente ensaiada.
Há vereadores que descobriram que fiscalizar diante de uma câmera rende mais do que estudar um projeto. Há gestores que aprenderam que anunciar uma obra é muito mais agradável do que concluí-la. E há uma população tão cansada que, às vezes, confunde presença digital com trabalho público.
A política municipal virou uma espécie de teatro permanente. O cenário é a cidade, o roteiro muda conforme a conveniência e o cidadão costuma participar como figurante — de preferência aplaudindo.
Não são todos, evidentemente. Existem servidores, comerciantes, lideranças comunitárias, professores, trabalhadores e representantes públicos que ainda tentam fazer a cidade funcionar. O problema é que o esforço de quem trabalha seriamente quase sempre precisa atravessar uma estrutura que aprendeu a premiar o barulho, a proximidade e a propaganda.
Enquanto isso, o rio-grandino vai perdendo a confiança.
Perde a confiança no poder público, no comércio, nas instituições e até nos próprios moradores. Passa a acreditar que qualquer proposta esconderá algum interesse, que toda novidade dará errado e que qualquer tentativa de mudança será inútil. É uma descrença compreensível, mas perigosa. Quando ninguém acredita que algo possa melhorar, aqueles que se beneficiam da estagnação governam com tranquilidade.
Uma população desacreditada cobra menos. Participa menos. Questiona menos. E, muitas vezes, vota apenas para punir alguém, favorecer um conhecido ou escolher o candidato que apareceu mais vezes no telefone.
Depois, todos se encontram na fila do ônibus para reclamar que nada muda.
Talvez a maior vitória da má política não seja conquistar votos. Seja convencer o cidadão de que política não serve para nada. Quando a população desiste, os espaços de decisão ficam livres para os mesmos grupos, os mesmos sobrenomes, os mesmos acordos e as mesmas promessas recicladas.
E Rio Grande não deveria aceitar tão pouco.
Estamos falando de uma das cidades mais antigas do estado, marcada pelo porto, pela universidade, pela indústria, pela pesca, pelo comércio e por uma história que ajudou a formar o Rio Grande do Sul. Temos patrimônio, conhecimento, localização estratégica e uma população que aprendeu a sobreviver a crises suficientes para preencher vários livros.
Ainda assim, caminhamos como se estivéssemos condenados a administrar eternamente o declínio.
A cidade parece viver de lembranças e anúncios. Lembra-se do que já foi, anuncia o que poderá ser e raramente discute com sinceridade aquilo que é. Entre a nostalgia e a promessa, o presente vai ficando abandonado no calçadão, esperando o próximo ônibus atrasado.
O rio-grandino não perdeu o amor por Rio Grande. Perdeu a confiança de que esse amor será correspondido.
Amar uma cidade, porém, não significa defendê-la de toda crítica. Muito menos publicar uma fotografia bonita do pôr do sol e fingir que ela resolve os problemas existentes abaixo do horizonte. Amar uma cidade é recusar o abandono como destino. É reconhecer suas qualidades sem transformar seus defeitos em tradição.
Não podemos continuar chamando precariedade de “jeito rio-grandino”. Não podemos considerar normal que direitos dependam de indicação, que obras atravessem governos sem terminar e que problemas históricos sejam tratados como novidades a cada campanha eleitoral.
A miséria moral começa quando deixamos de perguntar por que as coisas são assim. Ela cresce quando aceitamos que sempre foram e se completa quando acreditamos que sempre serão.
Rio Grande ainda pode recuperar a confiança em si mesma. Mas isso exige mais do que campanhas publicitárias, frases otimistas e vídeos de autoridades caminhando por ruas que raramente frequentam. Exige planejamento, transparência, participação e uma população disposta a voltar a se incomodar.
Talvez o primeiro passo seja abandonar a frase mais perigosa do vocabulário local: “Não adianta.”
Adianta cobrar. Adianta acompanhar. Adianta lembrar em quem se votou. Adianta perguntar onde foi aplicado o dinheiro. Adianta distinguir trabalho sério de encenação para as redes sociais. E adianta escrever, ainda que alguém diga que é apenas reclamação.
Porque reclamar, às vezes, é o último sinal de que ainda não desistimos.
Querido e gentil leitor rio-grandino, esta cidade não precisa que falemos bem dela o tempo inteiro. Precisa que nos importemos com ela o suficiente para não aceitar qualquer coisa.
O verdadeiro perigo não é dizer que Rio Grande está mal.
É chegar o dia em que ninguém mais considere isso um problema.