Querido e gentil leitor rio-grandino, precisamos conversar sobre o centro da nossa cidade.
Antes de qualquer coisa, deixo registrado: este texto é escrito por alguém que gosta de Rio Grande. E talvez seja justamente por gostar que certas coisas incomodem tanto. Afinal, ninguém reclama com tanta dedicação de uma cidade quanto quem ainda acredita que ela poderia ser melhor.
Dito isso, vamos ao que interessa: o centro de Rio Grande é caro e feio.
Pronto. Agora que a frase já foi dita, podemos fingir surpresa, olhar para os lados e esperar que alguém apareça para defender o indefensável. Talvez digam que toda cidade histórica tem prédios antigos. É verdade. A diferença é que, em muitos lugares, os prédios antigos são preservados. Aqui, alguns parecem estar apenas aguardando que o próximo vento sul resolva a situação.
Caminhar pelo calçadão é participar de uma experiência sensorial completa. Você contempla fachadas cansadas, desvia dos obstáculos, procura uma lixeira e ainda tenta entender como uma cidade cercada por água consegue transmitir uma sensação tão grande de abandono. É turismo de aventura, mas sem colete e sem certificado no final.
O calçadão deveria ser a sala de visitas de Rio Grande. É onde moradores circulam, comerciantes trabalham e visitantes formam suas primeiras impressões. No entanto, em certos trechos, ele se parece mais com aquela peça da casa que a família deixou de usar e passou a ocupar com móveis velhos: todo mundo sabe que existe, ninguém sabe exatamente o que fazer com ela e qualquer sugestão de reforma termina com alguém dizendo que não há dinheiro.
E talvez não haja mesmo. Mas sempre aparece dinheiro para alguma placa anunciando que, em breve, alguma coisa será feita. A placa envelhece, a promessa perde a validade e o problema permanece ali, firme e forte, praticamente tombado como patrimônio da administração pública.
Enquanto isso, comprar no centro virou um exercício de fidelidade à economia local — e fidelidade, como sabemos, exige sacrifícios. Você entra em uma loja, pergunta o preço de um produto e, por alguns segundos, acredita ter ouvido errado. Confirma o valor, olha novamente para a mercadoria e começa a procurar discretamente alguma característica especial. Talvez venha acompanhada de um terreno. Talvez dê direito a uma cadeira na Câmara Municipal. Talvez tenha sido abençoada no altar da Catedral de São Pedro. Mas não: é apenas o produto mesmo.
É claro que os comerciantes também enfrentam aluguéis, impostos, contas, insegurança e um movimento cada vez menor. O preço alto não nasce simplesmente da vontade maligna de alguém atrás do balcão. Existe um círculo difícil de romper: o centro perde atratividade, menos pessoas circulam, as vendas diminuem, os custos continuam chegando e os preços precisam sustentar uma estrutura que já não funciona como antes.
O problema, portanto, não é apenas comercial. É urbano, econômico e, inevitavelmente, político.
Durante décadas, o centro foi tratado como se sua importância histórica bastasse para mantê-lo vivo. Não basta. Uma região central precisa ser cuidada, iluminada, limpa, acessível, segura e agradável. Precisa de transporte que funcione, calçadas decentes, espaços de convivência, atividades culturais e políticas capazes de atrair moradores e consumidores. Não adianta pedir que a população “valorize o comércio local” se a experiência oferecida é cara, desconfortável e visualmente deprimente.
Também não resolve pintar três bancos, instalar um enfeite e publicar um vídeo nas redes sociais com música animada. Revitalização urbana não é maquiagem para fotografia de vereador. É planejamento contínuo, preservação do patrimônio, incentivo aos pequenos negócios e ocupação inteligente dos espaços abandonados.
Rio Grande possui história suficiente para construir um centro bonito, interessante e cheio de personalidade. Temos prédios que contam diferentes períodos da cidade, comércio tradicional, praças, igrejas, museus e personagens que fazem parte da memória coletiva. O que falta não é matéria-prima. Falta cuidado.
O centro não precisa imitar Porto Alegre, Pelotas ou qualquer outra cidade. Precisa voltar a parecer Rio Grande — mas uma Rio Grande que tenha orgulho de se apresentar. Uma cidade portuária, histórica, popular e atravessada por contradições. Uma cidade que não esconda suas marcas, mas também não transforme abandono em identidade cultural.
Talvez o título deste texto pareça cruel. “O centro de Rio Grande é caro e feio.” Mas cruel mesmo é aceitar que ele continue assim. Cruel é assistir às lojas fecharem, aos prédios se deteriorarem e às pessoas procurarem outros lugares porque deixaram de encontrar motivos para permanecer ali.
O centro ainda tem vida. Ela está nas pessoas que abrem seus estabelecimentos todos os dias, nos trabalhadores que atravessam o calçadão, nos aposentados que conversam nas praças e em quem insiste em caminhar por aquelas ruas apesar de tudo. Há uma cidade pulsando ali, mesmo quando a aparência sugere o contrário.
Rio Grande não precisa de mais uma promessa de revitalização pronunciada diante de uma câmera. Precisa de um projeto de cidade que saia do discurso, atravesse a porta dos gabinetes e chegue, finalmente, ao calçadão.
Até lá, querido e gentil leitor rio-grandino, seguimos caminhando pelo centro: desviando dos problemas, assustando-nos com os preços e admirando, com alguma criatividade, o enorme potencial escondido atrás das fachadas.
Porque amar Rio Grande também é recusar a ideia de que ela merece tão pouco.